Se 2007 fosse um filme, seria Casablanca. Cheio de partidas, despedidas, reencontros.
E sempre teremos Paris (que nem sempre fica na França).
domingo, 4 de novembro de 2007
Por que o céu ficou rosa
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
que eu pensava encontrar
Eu já falei com ele este ano. O vento forte e o céu cor de rosa que se revelaram pela minha janela hoje à tarde foi o jeito que ele escolheu para me responder. E eu entendi.
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
que eu pensava encontrar
Eu já falei com ele este ano. O vento forte e o céu cor de rosa que se revelaram pela minha janela hoje à tarde foi o jeito que ele escolheu para me responder. E eu entendi.
Domingo lúdico
Tenho uma memória olfativa surpreendente. Como o cheiro da chalá me lembra Jerusalém e pão fresco, Paris (são pães em tudo diferentes, da forma ao significado, assim como minhas recordações), descobri que arroz integral me leva a casa da Bel.
De panela aberta e cozinha quente, levitei até as lembranças da minha primeira infância. Eram muitos os cheiros naquela casa: patchouli, terra molhada, incenso, maconha e aquele azedo de criança. Havia crianças por toda parte. Crianças adultas e infantis. Conta a história que foi a primeira visita que recebi. Macacão jeans e barba. Deve ter sido também o primeiro aroma que senti fora do universo da placenta. O cheiro daquela barba que misturava todos os outros – e assim continuou mesmo depois das mudanças de idade, de casa, de credos e até com o fim da barba. Patchouli, terra molhada, incenso, maconha, azedo de criança e, descobri ontem, arroz integral. Eram esperançosos os adultos no começo dos anos 80. Tempos de abertura política, vontade hippie de paz e amor, passeata pela despoluição do mar (e nem se falava em aquecimento global), os amigos ainda não tinham morrido por causa da AIDS, nem de overdose. Havia amor. Daquele tipo puro, difícil de explicar. Éramos todos crianças brincando do que queríamos ser naquela casa encantada. Eu, bailarina. Corria, pulava, rodopiava. No som, um LP com Gilberto Gil cantando Realce. Na frente, um pau-brasil dava sementes para a gente fazer colares. Na porta lateral pouco usada, morava uma bruxa má. Ao pé da escada, uma foto de John Lennon com os óculos redondinhos tudo via. No forno, o pão integral. Na banheira, três meninas, às vezes mais, tomavam banhos de princesas. Na beira da piscina, um varal que me vazia voar. Era feliz naquele mundo lúdico. Nunca tive coragem de falar para ela o quanto sinto a falta do pai dela. E o quanto me entristeceu a morte dele. Mas como dar os pêsames se nem a gente se agüenta? Alguém que tinha nome de domingo...no plural.
Então, tampei a panela e procurei num CD perdido em meio a outros, a música de Gilberto Gil. Encontrei e, entre parafinas e purpurinas, fiz o jantar mais feliz que essas terras daqui já viram.
Ah, o arroz ficou meio sem sal, meio duro. Mas me alimentou. Como a vida faz.
De panela aberta e cozinha quente, levitei até as lembranças da minha primeira infância. Eram muitos os cheiros naquela casa: patchouli, terra molhada, incenso, maconha e aquele azedo de criança. Havia crianças por toda parte. Crianças adultas e infantis. Conta a história que foi a primeira visita que recebi. Macacão jeans e barba. Deve ter sido também o primeiro aroma que senti fora do universo da placenta. O cheiro daquela barba que misturava todos os outros – e assim continuou mesmo depois das mudanças de idade, de casa, de credos e até com o fim da barba. Patchouli, terra molhada, incenso, maconha, azedo de criança e, descobri ontem, arroz integral. Eram esperançosos os adultos no começo dos anos 80. Tempos de abertura política, vontade hippie de paz e amor, passeata pela despoluição do mar (e nem se falava em aquecimento global), os amigos ainda não tinham morrido por causa da AIDS, nem de overdose. Havia amor. Daquele tipo puro, difícil de explicar. Éramos todos crianças brincando do que queríamos ser naquela casa encantada. Eu, bailarina. Corria, pulava, rodopiava. No som, um LP com Gilberto Gil cantando Realce. Na frente, um pau-brasil dava sementes para a gente fazer colares. Na porta lateral pouco usada, morava uma bruxa má. Ao pé da escada, uma foto de John Lennon com os óculos redondinhos tudo via. No forno, o pão integral. Na banheira, três meninas, às vezes mais, tomavam banhos de princesas. Na beira da piscina, um varal que me vazia voar. Era feliz naquele mundo lúdico. Nunca tive coragem de falar para ela o quanto sinto a falta do pai dela. E o quanto me entristeceu a morte dele. Mas como dar os pêsames se nem a gente se agüenta? Alguém que tinha nome de domingo...no plural.
Então, tampei a panela e procurei num CD perdido em meio a outros, a música de Gilberto Gil. Encontrei e, entre parafinas e purpurinas, fiz o jantar mais feliz que essas terras daqui já viram.
Ah, o arroz ficou meio sem sal, meio duro. Mas me alimentou. Como a vida faz.
quinta-feira, 1 de novembro de 2007
A vida como ela é
Não é porque sou ruim. Nem por ser insensível. Prática, talvez. Egoísta, com certeza. Mas sabemos que essa criança sempre será a prova do que a vida é. Por isso não consigo. Ou estarei absolutamente certa com todas minhas teorias e defesas, ou totalmente errada. E ainda não estou pronta para saber a resposta. Não seremos felizes.
Das vezes que engravidei
Quando eu tinha 15 anos minha melhor amiga na época engravidou. Ela repetiu de ano e não me contou com vergonha, mudou de cidade e teve anemia. A última vez que a vi, ela precisava de um canto para dormir antes de voltar para São Paulo. Tempos difíceis. Ficou no sofá de casa, emprestei um livro que gostava muito, o Diário de Lúcia Helena, e fui dormir. Nunca mais vi. Nem ela, nem o livro.
Depois que saí da escola, uma das meninas da minha turma de oito amigas engravidou. Parou a faculdade de odontologia (depois retomou e hoje trabalha lindinha toda de branco). Fui no chá de bebê na casa que já vira meia dúzia de adolescentes bêbados caindo na piscina. Pintamos a barriga dela com batom e como o tempo não era de máquina digital, tenho guardadas as fotos com muito carinho. Éramos bem bonitas nessa época. Eu ainda acreditava no amor. O menino nasceu, ela casou, ele cresceu, ela separou. Voltou para a casa da mãe – a da piscina. Ela encontrou outro cara legal. E, se não me engano, está bem. Mas eu não a vejo há anos.
Tempos depois, por causa de um telefonema no meio de um plantão, fiquei sabendo que ele seria pai. Também era outubro. Respirei pálida e fui dar um boletim de trânsito. Depois, subi no sétimo andar - que decididamente não era o sétimo andar e meio do John Malkovich - e disse a ele, depois de um beijo triste, que não me procurasse nunca mais. Game over. Lembro bem da expressão que usei. Ele estava de camiseta laranja. Ele separou. Ela casou com outro. A criança nasceu. Não sei se ele registrou. Não sei se a mãe da criança fala com ele - faz bem se não. Ele não vale nada mesmo. E meu ‘nunca mais’ durou até o dia em que ela pariu. E eu nem sabia.
No meio do ano, uma outra amiga da turma de oito também engravidou. Susto. Parecia que iam roubar a nossa juventude, que ainda éramos aquelas de calça bailarina e keds, que não devia. Mas aos 28 anos e depois de um aborto, já era hora. Não a vejo há anos. Mas torço para que seja feliz.
Há três semanas, minha melhor amiga soube que estava grávida. Vai sair do emprego que queria - ou dizia querer - desde os tempos da faculdade. Vai fazer um caminho que não chega na Dinamarca. Na Copa de 2014, ela vai levar o filho aos jogos. Se o santo que a mãe dela reza for bonzinho, ela terá um marido. E ele também irá. De verde e amarelo. E eu pensarei, onde quer que eu esteja, nela lá, pulando e gritando e ensinando o filho a gostar desse troço que é o futebol. E ele já vai saber toda a escalação – incluindo a do Santos nos tempos de Pelé e Coutinho e Mengálvio e Pepe. Eu vou terminar o café amargo que estiver tomando e encontrar minha solidão do outro lado da rua.
Depois que saí da escola, uma das meninas da minha turma de oito amigas engravidou. Parou a faculdade de odontologia (depois retomou e hoje trabalha lindinha toda de branco). Fui no chá de bebê na casa que já vira meia dúzia de adolescentes bêbados caindo na piscina. Pintamos a barriga dela com batom e como o tempo não era de máquina digital, tenho guardadas as fotos com muito carinho. Éramos bem bonitas nessa época. Eu ainda acreditava no amor. O menino nasceu, ela casou, ele cresceu, ela separou. Voltou para a casa da mãe – a da piscina. Ela encontrou outro cara legal. E, se não me engano, está bem. Mas eu não a vejo há anos.
Tempos depois, por causa de um telefonema no meio de um plantão, fiquei sabendo que ele seria pai. Também era outubro. Respirei pálida e fui dar um boletim de trânsito. Depois, subi no sétimo andar - que decididamente não era o sétimo andar e meio do John Malkovich - e disse a ele, depois de um beijo triste, que não me procurasse nunca mais. Game over. Lembro bem da expressão que usei. Ele estava de camiseta laranja. Ele separou. Ela casou com outro. A criança nasceu. Não sei se ele registrou. Não sei se a mãe da criança fala com ele - faz bem se não. Ele não vale nada mesmo. E meu ‘nunca mais’ durou até o dia em que ela pariu. E eu nem sabia.
No meio do ano, uma outra amiga da turma de oito também engravidou. Susto. Parecia que iam roubar a nossa juventude, que ainda éramos aquelas de calça bailarina e keds, que não devia. Mas aos 28 anos e depois de um aborto, já era hora. Não a vejo há anos. Mas torço para que seja feliz.
Há três semanas, minha melhor amiga soube que estava grávida. Vai sair do emprego que queria - ou dizia querer - desde os tempos da faculdade. Vai fazer um caminho que não chega na Dinamarca. Na Copa de 2014, ela vai levar o filho aos jogos. Se o santo que a mãe dela reza for bonzinho, ela terá um marido. E ele também irá. De verde e amarelo. E eu pensarei, onde quer que eu esteja, nela lá, pulando e gritando e ensinando o filho a gostar desse troço que é o futebol. E ele já vai saber toda a escalação – incluindo a do Santos nos tempos de Pelé e Coutinho e Mengálvio e Pepe. Eu vou terminar o café amargo que estiver tomando e encontrar minha solidão do outro lado da rua.
Socorro
Tem gente que corta os pulsos. Tem gente que engravida. Tem gente que casa. Tem gente que muda de cidade. Tem gente que pinta os cabelos. Tem gente que faz lipoaspiração. Tem gente que muda de sexo. Tem gente que larga o emprego. Tem gente que pula do décimo andar. Tem gente que morre. E tem gente que não vive.
Mais sobre o mesmo - mesmo que não pareça:
eu: já te falei que ele leu meu blog?
ela: NÃO
FALAE
eu: então, ele leu
disse que gostou
mas não tocou em nenhum dos assuntos que eu falei...
ela: TÁ MTO BOM
eu: ele deve ter sacado que tem coisa lá que é ele, né?
ela: não
burrinho
eu: não?
acho que vou desenhar...hahahahaha
ela: acho que vou comprar fralda
eu: para ela?
ela: é
eu: eu não consigo
Mais sobre o mesmo - mesmo que não pareça:
eu: já te falei que ele leu meu blog?
ela: NÃO
FALAE
eu: então, ele leu
disse que gostou
mas não tocou em nenhum dos assuntos que eu falei...
ela: TÁ MTO BOM
eu: ele deve ter sacado que tem coisa lá que é ele, né?
ela: não
burrinho
eu: não?
acho que vou desenhar...hahahahaha
ela: acho que vou comprar fralda
eu: para ela?
ela: é
eu: eu não consigo
Carta para meu destino disléxico
"Querido destino,
Quando eu mando alguém para o limbo, é lá que ele deve ficar. No limbo, jogando vôlei e peidando. Bem longe de mim. Entendeu ou quer que eu desenhe?"
Êita semaninha cagada!
Quando eu mando alguém para o limbo, é lá que ele deve ficar. No limbo, jogando vôlei e peidando. Bem longe de mim. Entendeu ou quer que eu desenhe?"
Êita semaninha cagada!
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